Sobre sorvetes, lembranças e momentos encapsulados
Sabe... Hoje em dia, eu já não tenho muitas lembranças da minha infância.
Na verdade, essa é uma das maiores frustrações e preocupações que sempre tive comigo mesmo. Medo de perder a essência lá do começo. Aquela essência de quando ainda não se sabe de muito do mundo e com isso, consequentemente, perder boa base de tudo em sua raiz.
Por exemplo... Uma das boas lembranças que ainda tenho e que me vem a mente agora é que meu pai mesmo amando sorvete, tomava apenas uma ou duas vezes ao ano. O motivo? Uma sinusite insuportável que o atacava por causa daquela "pedra de gelo" repentinamente garganta a dentro.
Até hoje acho tão injusto o fato de ter que abrir mão de algo tão prazeroso por causa de uma dor idiota que vinha de brinde, mas ao mesmo tempo, me lembro de como ele saboreava cada micro pedaço do tão esperado e preferido sorvete de milho ou as vezes até o de coco queimado que era o seu segundo favorito. Depois que entendi que aquilo era sempre uma espécie de momento único para ele, não dava mais para descrever a expressão dele de prazer e a minha de "analista júnior de cara de pai chupando sorvete". Dali em diante (não exatamente naquela hora, mas muitos anos depois) entendi que a vida seria composta por diversos momentos únicos formando maravilhosas lembranças. Fosse um determinado sabor agradável, uma brisa leve que desse paz, uma música... Enfim, eu devia ter uns 8 anos e essa é a lembrança que me vem em mente agora como um enunciado.
O par de olhos que me lembro e que não envelhecem com o tempo ou por causa das minhas lembranças. Mas se envelhecem, estão ritmo de slow motion ou talvez a câmera ou o programa seja do tipo amigão.
De qualquer forma, essa não se trata de agrado ou qualquer coisa do tipo, pois estamos falando de boas lembranças e coisas bonitas em sua simples essência e isso por si só já basta. As imagens que nos restam. Seja isso algo conhecido ou até mesmo de gente desconhecida. Pois tudo é perceptível dependendo do ângulo e da forma como se vê. Assim como tudo também é registrado, formatado e pode ser apreciado, dependendo também do angulo em que se está. Sejam as lembranças que tanto gosto, sejam os seus olhos de que sempre me lembro ou até mesmo, o sorvete uma ou duas vezes no ano que por pura mania ou por puro desastre de DNA acabei herdando de meu pai.
A grande questão é que certas coisas a gente aproveita da melhor forma que pode, guardando-as em uma cápsula do tempo e quando as resgatamos sempre encontramos um sorriso perdido. Seja em um simples sorvete de infância ou ate mesmo momentos capturados por olhos inesquecíveis que não envelhecerão pois estão guardados em um momento que foi encapsulado.
Brisado por: Carlos Henrique Alves
